"Há recessos desconhecidos na nossa mente que estão além do limiar da consciência relativamente construída. Não é correto designar esses recessos por subconsciência ou superconsciência. A palavra além é simplesmente usada porque é o termo mais conveniente para indicar o lugar. Mas o certo é que não há na nossa consciência nem além, nem debaixo nem em cima. A mente é um todo indivisível e não pode ser desagregada em pedaços" (D. T. Suzuki - Introdução ao Zen)

"Entrar na floresta sem mover a grama; entrar na água sem provocar nenhuma ondulação" (Zenrin Kushu)

domingo, 1 de maio de 2022

O Antiateu III





"Apenas aqueles que pensam por metades

se tornam ateus, 

aqueles que se aprofundam

em seus pensamentos

e vêem as maravilhosas relações

entre as Leis Universais

reconhecem um Poder Criador"

(Max Planck)


Aquela que pariu o mundo

a Coroa de onde tudo regurgita

e brota os cinco elementos

Ain Soph

Tao Eterno 

Os Antigos Sábios criaram

tua imagem no Zero Absoluto

que insignifica o nada, 

nem é um conjunto vazio

mas ícone do Todo

que tudo abrange

e não se divide

moto perpétuo

campo de sutil energia

que envolve a Vida Planetária

de forma insuspeita

iludida matéria bruta

da biosfera cadente

onde o maior come o menor

em perpétuo banquete

servido pela Deusa do Vale

presente cheio de eternidade

a cada segundo que passa  

mortal desígnio de vida perene

retorno à Fonte 

e que assim seja... 




 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Assimetria do Destino Manifesto






Muito além

de mim ou de você

do sim e do não

do quente e do frio

do bit sagrado

da harmonia dos opostos

e da oposição

de todos os contrários

e apesar dos contraditórios

a mente vaga no infinito vazio

o som lá não se escuta

o odor permanece como coisa intocada

o paladar inexiste

a ilusão de Maya fenece

com o abandono do ser

Muito além

do jardim da inocência

das vagas deste infinito oceano

Eurínome cavalga Ófion

flutua a compreensão

do destino manifesto

da senciência

este deus esquecido

em caverna escura e sombrenta

onde mortais contam suas migalhas

na mais pura ignorância.





segunda-feira, 21 de março de 2022

Da Eternidade -

 





Ao longe

Escuto um grito feliz 

de criança

Que ecoa

Entre as gotas

que descem travessas

levando as folhas de Outono

em seu derradeiro curso

A arte é longa...a vida breve

Eis a tragédia dos grandes espíritos

As estrelas exercem misterioso  influxo

Neste escorregadio destino

Caminho

Viagem

Queda

Eclipse dos homens

sobre a Terra dilacerada

que deita sua dor

pelas ambições dos cujos 

na cama que se estende no orvalho

Refrigério da paixão do destino

Liberta e alimenta

cada flor que desabrocha

da semente úmida

útero perpetuo

Alma Imortal

que nunca finda...


Como Um Cão

 



Eu queria ser como um cão 


para receber afagos das moças donzelas


me enroscar nas pernas delas 


Latir e uivar para a Lua Cheia


correr pelos passeios sem preocupação


roer o osso como podre delicia


cavoucar a terra úmida


habitar no aqui agora...


   

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

O ANTIATEU II - a pesca da moréia e da garoupa

O Grande Mestre (Dogen) teria escrito:

"a quem comparo afinal o mundo e a vida do ser humano?"

"À sombra da Lua quando repousa na gota do orvalho

do bico de uma ave aquática"


Em mar profundo 

a garoupa sempre invita a moreia

para caçarem juntas 

fazendo um bailado único

seguem resolutas entre os corais

Enquanto a moreia penetra 

em diminuta cova

a outra espera a presa 

do lado de fora

Quem foi o professor?

Só Deus sabe...





terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Basho e o Vento




O VENTO é para Basho, um sinonimo para a errância e para a fugacidade das coisas Ele se entende monge errante "em vestes que balançam com o vento." Füryú, uma expressão com a qual Bashô caracteriza sua poesia, significa literalmente "fluxo de vento" . Na cultura do Extremo Oriente, que está mais voltada à impermanencia e à metamorfose do que à identidade e à constancia, a palavra vento é utilizada com muita frequência. "Paisagem", por exemplo, significa "Vista do Vento". Em vez de se falar em paisagem (landscraft), se teria que falar em "Ventasagem" (Windscraft). Nesta perspectiva do Extremo Oriente, a paisagem perde a fixidez que é conotada com o país (land). Em troca ela recebe um sentido que flui ou que corre. ( Byung Chul-Han - Filosofia do Zen Budismo - págs114-115 - Ed. Vozes - 2019)         




quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Crisálida da Alma




 


Eu me pertenço

esta sensação de pertencimento

me consola e afaga

Pratiquei a mais importante 

boda da existência

Entre as duas facetas

de mim mesmo

entrei na velhice com entendimento

da finitude do tempo que

me resta

Cada minuto é como um licor

que esquenta minha alma

Vivo agora a leveza

de cada movimento

momento exato do agora

que saboreio como fruta madura

seu suco derrama o doce mel 

da Vida...


Dedicado ao mestre Thich Nhat Hanh