"Há recessos desconhecidos na nossa mente que estão além do limiar da consciência relativamente construída. Não é correto designar esses recessos por subconsciência ou superconsciência. A palavra além é simplesmente usada porque é o termo mais conveniente para indicar o lugar. Mas o certo é que não há na nossa consciência nem além, nem debaixo nem em cima. A mente é um todo indivisível e não pode ser desagregada em pedaços" (D. T. Suzuki - Introdução ao Zen)
"Entrar na floresta sem mover a grama; entrar na água sem provocar nenhuma ondulação" (Zenrin Kushu)
sexta-feira, 27 de março de 2015
segunda-feira, 7 de julho de 2014
O Tantra
O
Tantra sempre esteve associado às práticas de magia, ao xamanismo e às antigas crenças de fertilidade dos
povos Orientais. Os especialistas do Ocidente sempre tentaram associar as
crenças tântricas com superstições incompreensíveis. Sua repulsão, em parte
intelectual foi devido a acreditarem ter superado as crenças mágicas dos seus
antepassados. E para complicar ainda mais seu estudo, o Tantra tem a faculdade
de provocar a indignação moral de alguns e abalar as raízes da cultura judaico-cristã
e budista tradicional. Os racionalistas pretendiam que nas doutrinas budistas,
por exemplo, as práticas tântricas fossem consideradas uma degeneração da
filosofia original. Em realidade os poderes psíquicos extraordinários e os
milagres nunca foram postos em dúvida entre os budistas. Para aqueles que
tinham capacidade necessária, o cultivo de tais poderes formava parte do
programa de iluminação, enquanto para outros era uma benção discutível. A
existência de muitas classes de espíritos incorpóreos e a realidade das forças
mágicas, ambos eram considerados indiscutíveis e as crenças neles fazia parte
de uma cosmologia comum.
É difícil estabelecer quando se
iniciaram as práticas tântricas. Como se tratam de doutrinas herméticas, de
mistérios, seus seguidores tem preferido manter seus segredos. As ideias
ocultistas e esotéricas devem ter circulado em pequenos grupos de iniciados
antes de alcançar a luz do dia. Como um sistema de crenças mais ou menos
público, o Tantra adquiriu força depois do ano 500 ou 600 da nossa era.
Entretanto suas raízes encontram-se nos primórdios da história humana, quando
as sociedades agrícolas estavam mergulhadas nas práticas mágicas, nos
sortilégios de feiticeiras e xamãs, nos rituais de sacrifícios humanos e nos
cultos de fertilidade da deusa mãe e outras divindades ctônicas. O Tantra não é
uma criação nova, senão o resultado da absorção de crenças primitivas nas
tradições literárias hinduístas e depois sua mescla com a filosofia budista.
Como os hinduístas, os budistas
distinguem um Tantra “da mão direita” e outro “da mão esquerda” No hinduísmo os
“observadores da mão direita” (dakshinacarins)
dão mais importância ao principio masculino no Universo enquanto os
“observadores da mão esquerda” (vamacarins
- das palavras vama, “reverso, oposto, esquerdo; mau, vil”, mas também “belo,
agradável”, e cari , “aquele que vai, prossegue ou anda por um caminho” )
ao principio feminino. O termo “shaktismo”
está associado ao Tantra da mão esquerda. O “shaktismo” hindu está ligado ao shivaismo.
As doutrinas Shaiva tiveram
grande influência no “shaktismo”
budista. Shakti é a consorte divina,
energia criadora, potência feminina. No shivaismo
a adoração de Shakti está relacionada
com a esposa de Shiva – Parvati ou Uma – denominada também de “A
Grande Deusa”, e “A Grande Mãe”. Uma particularidade do shaktismo é que as divindades possuem uma manifestação benigna e
uma manifestação terrível conforme o culto. A manifestação terrível de Parvati é Durga, A inacessível, ou Kali, a Negra. As manifestações terríveis estão associadas à
morte, à destruição, e à necromancia, aos sacrifícios animais e humanos. Ao
mesmo tempo no shivaismo são inumeráveis as manifestações femininas
relacionadas à Maha-Kali (Tempo
Poderoso), Nytia-Kali (Tempo
Infinito), Shmashana-Kali (Kali do
Solo Abrasador), Raksha-Kali (Guardiã),
Shyama-Kali (A Negra).
Os textos sagrados dos vamacarins pertencem ao Tantra (“tear. Teia; veste; disciplina; manual; caminho certo”); eles remontam
ao período Gupta e posteriores e são na essência suplementos técnicos das
várias escrituras purânicas de Vishnu, Siva e da Deusa, sendo alguns do
“Caminho da Mão Direita” (dakshina) e
outros da Mão Esquerda.
No Tantra são
cultuadas Maha-Kali e Nytia-Kali. Quando não havia nem a
Criação , recitam os místicos hinduístas, nem existiam ainda o Sol, nem a Lua,
nem os planetas e nem a Terra, e quando as trevas estavam envolvidas nas
trevas, então a Mãe, a Sem Forma, a Maha-Kali,
o Grande Poder, era una com Maha-Kala,
o Absoluto.
Shyama-Kali tem um aspecto um tanto
meigo e é uma divindade protetora do
lar. Ela dispensa bênçãos e dispersa o medo. Nos tempos de epidemia, fome,
terremoto, secas e inundações, Raksha-Kali
é a deusa venerada pelas pessoas. Shmashana-Kali
é a manifestação do poder de destruição. Ela habita nos crematórios, cercada de
cadáveres, chacais e terríveis espíritos femininos. Da sua boca jorra uma
torrente de sangue, do seu pescoço pende uma grinalda de cabeças humanas e em
volta da sua cintura há um cinto feito de mãos humanas.
A manifestação feminina do Brahman, a Divina Mãe, depois da
destruição periódica do Universo possui um papel primordial, ao final do grande
ciclo do dia de Brahma, recolhe as
sementes para a próxima Criação. Ela é como uma anciã que tem um baú no qual
guarda seus artefatos domésticos. Esse poder primevo após a nova Criação habita
o próprio Universo. Ela emana este mundo dos fenômenos e então impregna-o com
sua energia fecundante. Prisão e liberação são seus atributos divinos. Através
de sua Maya os habitantes do mundo se
envolvem em “mulheres e ouro” e novamente, por sua graça, eles conseguem a
liberação. Ela é chamada a Redentora e a Removedora do cativeiro que prende a
pessoa ao mundo. Ela é obstinada e sempre tem que ter tudo à sua maneira, dizem
seus fiéis.
O Mistério
Cósmico de Maya tem três poderes. O
primeiro é de obscurecer e ocultar Brahman,
o Absoluto; o segundo, o de projetar a miragem do mundo e o terceiro é o de
revelar Brahman através dessa miragem,
que conhecemos como a ilusão do mundo dos fenômenos. Satyavati, uma das manifestações femininas descritas pelos livros
sagrados, em seu barco transportava iogues para a outra margem e nessa função
representava o poder revelador de Maya;
mas ela também transportava passageiros da margem de lá para a de cá e com isso
obscurecia e projetava. A serviço do desejo do bondoso rei Santanu, seduzido pelo seu perfume e ludibriado por sua falsa
virgindade, ficou com ela na margem de cá, e ela se tornou a força ativadora de
toda esfera e de toda a interação de luz e sombra no universo védico. Em uma
das margens está o campo de toda alegria e dor, virtude e vício, conhecimento e
ilusão, mas a outra margem do rio está além desses princípios complementares
até um absoluto que ultrapassa a concepção dos princípios. No meio do caminho
está a ilha, o mundo, a fonte do mito, que, em si mesmo, é tanto verdadeiro
quanto falso, tanto revelador quanto obscurecedor, e deve ser interpretado como
a própria vida, de acordo com o talento de cada um, de um ou de outro jeito,
como verdade literal, ou como alegoria de uma transição mais profunda.
O Tantra
apropriou-se do enorme panteão da mitologia popular, com sua imensa quantidade
de manifestações. Entretanto seus seguidores estavam de acordo com as
suposições metafísicas da sabedoria védica (prajnaparamita),
em que a realidade ultima da vacuidade (sunnyata)
é a única realidade, enquanto que qualquer classe de multiplicidade do mundo
dos fenômenos seria em última análise irreal e produto de nossa mente ignorante
e enferma. A multiplicidade de deuses seria então nada mais que uma ficção,
produto da imaginação, e nenhuma dessas divindades teria existência autônoma
sem a mente criadora do homem. A mente moderna, que se considera laica, no
Ocidente, poderia concordar com esse postulado se não fosse o aspecto de que
acreditamos que as coisas materiais ao nosso redor são reais e as divindades
são uma criação falha do intelecto humano devido ao resultado das decepções de
nossa vida intuitiva e instintiva perante aos acontecimentos da vida cotidiana.
Ao contrário, segundo o Tantra, tanto as coisas materiais, como as divindades
são irreais perante a grande vacuidade (sunnyata),
mas em seu conjunto, a mitologia representa uma espécie de referência que
vale muito mais que os dados da nossa experiência cotidiana, e quando manejados
adequadamente, nos ajudam de forma eficiente a alcançar nossa libertação das
ataduras da existência.
Para o
iniciado, como exige qualquer religião milenar de Mistérios, o ritual de
iniciação sempre é fundamental, como foi nas antigas sociedades tribais. Sendo
assim, o tantrismo adquire as formas ancestrais de pensar e atuar, que são
veladas aos não crentes, e possuem suas raízes fincadas nos recônditos do
nascimento da humanidade. A palavra sânscrita para a cerimonia de iniciação é Abhishekha, que significa literalmente borrifar. O iniciado é borrifado com
água batismal em um processo semelhante ao batismo cristão. O ritual se
assemelha ao da coroação de um rei hindu, sendo a participação da água do
Conhecimento como para coroar um novo monarca iniciado nos mistérios búdicos ou
tântricos. Três métodos foram consagrados pelos devotos:
I)
A Recitação de encantamentos
II)
A Realização de danças e rituais
III) A Identificação com as divindades através de uma
classe especial de meditação
O Tantra elaborou um sistema de meditação
sobre as divindades, que possui uma sequencia de quatro passos:
Em primeiro
lugar está a compreensão da vacuidade (sunnyata)
e o fundir da individualidade dentro dessa vacuidade.
Em segundo
lugar o iniciante deve repetir e visualizar sílabas sagradas e mantras.
Em terceiro
lugar o iniciante deve conceber a forma de uma divindade, sua representação
externa, como aparece nas imagens e pinturas.
Em quarto lugar
o iniciado, pela identificação deve incorporar e se converter na divindade.
Nas tradições
tântricas, como no cabalismo hebraico e no seu alfabeto sagrado, o sânscrito é
considerado a primeira língua universal e também sua escrita é sagrada, a
pronúncia do nome de qualquer deus fará com que ele se manifeste e seu poder
opere, já que o nome é a forma audível do próprio deus. A palavra suprema, da
qual todo o Universo visível e invisível emana a sua manifestação absoluta, é na
tradição hindu a sílaba AUM. Ela conecta o iniciante com as energias audíveis
do Universo.
Os rituais
tântricos como nos foram revelados pelos historiadores envolvem a união dos
princípios masculino e feminino para através do orgasmo atingir a plenitude da
potência divina como microcosmo do processo de criação e fecundação universal. O
hierogasmo, a união carnal dos
personagens consagrados à Deusa é descrita, como instruções de culto, nos
textos sagrados:
“Sou Bhairava, o Eu onisciente, dotado de atributos.”
Tendo sido assim meditado, que o devoto
prossiga até a adoração à Kula.
Vinho, carne, peixe, mulher e união sexual:
Estas são as cinco bênçãos que afastam todos
os pecados.
Nesses ritos o objeto sagrado é uma jovem
nua dançando, devota. Prostituta, lavadeira, esposa de barbeiro, mulher brâmane
ou sudra, florista ou leiteira, e a hora tem que ser meia-noite. O grupo deve
ser formado por um círculo de oito, nove ou onze casais nos papéis de Bhairava e Bhairavi. São pronunciados mantras específicos, de acordo com a
classe da pessoa a ser escolhida como Sakti,
que então é adorada de acordo com a regra. Ela é colocada despida, mas
ricamente ornamentada dentro ou ao lado de um círculo de pares de homens e
mulheres devotos, e purificados através de vários mantras. A suprema sílaba
sagrada da ocasião lhe é sussurrada três vezes ao ouvido; ela é aspergida com
vinho, recebe carne, peixe e vinho que abençoa com seu toque e a seguir são
distribuídos entre os crentes ao som dos cânticos sagrados, ela torna-se assim
o instrumento de uma sequencia de atos sacramentais preliminares que culminam
numa consagração geral entre mantras e formas de meditação. Exercícios eróticos
podem acompanhar e encerrar os rituais já que a energia libidinal, a união do
masculino e do feminino criam o uno, a perfeição da harmonia dos opostos, que
proporciona o samadhi para os amantes
iniciados.
As cinco bençãos acima mencionadas são conhecidas como os Cinco Emes: vinho (madya), carne (mamsa), peixe (matsya), mulher (mudra) e união sexual (maithuna). Nos chamados "ritos substitutivos" ou simulacros indicados àqueles que devem adorar a deusa numa atitude antes de criança do que de amante, madya torna-se leite de coco; mamsa, grãos de trigo, gengibre, sal ou alho; matsya, rabanete vermelho, gergelim vermelho, masur (um tipo de grão), a verdura brijal branca e paniphala (uma planta aquática); mudra, trigo, arroz com ou sem casca, e maithuna, um ritual de submissão infantil aos Pés de Lótus da Mãe Divina
Outros rituais de adoração da Deusa envolvem o sacrifício de vitimas humanas e até mesmo a degustação de sua carne. Outros ainda, para a obtenção de capacidades mágicas, exigem que o iogue medite à meia-noite num cemitério, num chão ardente ou num local onde são executados os criminosos, sentado sobre um cadáver; se ele conseguir realizar isso sem medo, os fantasmas e as manifestações de duendes femininos serão seus escravos. Certos crentes “furam sua carne com ganchos e espetos, atravessam suas línguas e bochechas com instrumentos pontudos, deitam-se em camas de prego ou cortam-se com facas”. Os chamados Portadores de Crâneos cobrem-se com as cinzas de uma pira funerária, penduram uma corrente de crânios humanos ao pescoço, trançam os cabelos e usam uma pele de tigre sobre os quadris, levando na mão esquerda um crânio como tigela e na direita um sino que deve ser tocado incessantemente enquanto gritam: “Oh, Senhor e Esposo de Kali!”
Outros rituais de adoração da Deusa envolvem o sacrifício de vitimas humanas e até mesmo a degustação de sua carne. Outros ainda, para a obtenção de capacidades mágicas, exigem que o iogue medite à meia-noite num cemitério, num chão ardente ou num local onde são executados os criminosos, sentado sobre um cadáver; se ele conseguir realizar isso sem medo, os fantasmas e as manifestações de duendes femininos serão seus escravos. Certos crentes “furam sua carne com ganchos e espetos, atravessam suas línguas e bochechas com instrumentos pontudos, deitam-se em camas de prego ou cortam-se com facas”. Os chamados Portadores de Crâneos cobrem-se com as cinzas de uma pira funerária, penduram uma corrente de crânios humanos ao pescoço, trançam os cabelos e usam uma pele de tigre sobre os quadris, levando na mão esquerda um crânio como tigela e na direita um sino que deve ser tocado incessantemente enquanto gritam: “Oh, Senhor e Esposo de Kali!”
Em geral, as
seitas do Caminho da Mão Esquerda repudiam a divisão de castas durante o
momento sagrado do rito. “Enquanto o
tantra de Bhairava está presente na sessão, todas as castas são brâmanes”, lemos em um texto da seita. “Terminada a sessão, elas voltam a ser
distintas.” O Tantra é uma forma de ioga, uma passagem para além dos
limites da esfera do Dharma e em suas
variantes rituais até mesmo as relações de família e os tabus de incesto podem
ser desconsiderados nas sessões orgásticas. Pois se declara “que todos os homens e todas as mulheres são
de uma casta única e que sua relação sexual está isenta de transgressão”. “Afasta
a ideia de dois e sê de um corpo”, lemos num hino que celebra a realização
desse caminho, “muito difícil é esta
disciplina do amor”.
Os cultos
tântricos de Shakti colocam a mulher
no centro do sistema simbólico. Suas principais características são a adoração
das Shaktis, as manifestações femininas com as quais os deuses masculinos, os
seus pares opostos, estão unidos no abraço da união amorosa da unidade. Promovem
a adoração de grande quantidade de divindades aterradoras e do seu deus Bhairava (o Terrível), a personificação
da ira de Shiva, associada
com a completa aniquilação do mal e sua liturgia compreende um ritual
complexo conectado ao mundo dos mortos. A meditação e os exercícios respiratórios
são fundamentais na sua consecução como uma prática de yoga a ser realizada
pelo par de opostos onde o gozo é contido ao máximo para a realização final do
atingimento do Samadhi através da
libertação libidinal. A tradição do Tantra estabelece a presença no
interior de cada ser de todos os deuses e demônios dos céus e infernos oriundos
de todos os patamares da mente.
O antigo
budismo, em seus primórdios, conforme estabelece a tradição ariana, foi um
sistema severamente masculino e somente admitia algumas divindades femininas
bastante subordinadas em seu panteão. Os deuses superiores são assexuados, e
também o são os habitantes dos campos búdicos. A feminilidade era em geral um
obstáculo para o atingimento de níveis espirituais superiores e ao acercar-se
do estado búdico o Bodhisatva deixava de renascer na forma feminina. Acreditavam
que não era possível que uma mulher se convertesse em Buda.
Prajnaparamita e Tara foram as primeiras divindades budistas autônomas. O culto de Tara parece ter sido incorporado ao
budismo por volta de 150 d. C. Tara,
do sânscrito “Taraiati” é a divindade salvadora que nos ajuda a
cruzar a outra margem do rio, que elimina o medo e o temor e que outorga o
cumprimento de nossos desejos. Tara é
criação da imaginação popular, como não poderia deixar de ser, já que o
imaginário do inconsciente coletivo exige a figura do culto ao feminino e da
psicopompa. A Prajnaparamita por
outro lado originou-se como conceito
em pequenos grupos de ascetas metafísicos. Na corrente Mahayana, não era só um
atributo ou virtude, um livro ou um mantra, senão também representava uma
divindade. A personificação da sabedoria transcendental parece ter começado por
volta do começo de nossa era. Nos sutras
de Prajnaparamita é descrita como “a Mãe de todos os Budas”. Qual é o
significado dessa expressão? Da mesma maneira que uma criança nasce da mãe,
assim a iluminação completa de um Buda vem da Perfeição da Sabedoria. Ela é a
manifestação que lhes ensina a andar pelo mundo. Desta forma um principio
feminino foi colocado ao lado do Buda, e até certo ponto acima dele. É
interessante notar que os textos de Prajnaparamita
tiveram origem no Sul da Índia, de onde o meio drávida, mais antigo, havia
mantido vivas várias ideias matriarcais, que o bramanismo, mais exclusivamente
masculino, havia suprimido no Norte da Índia. Quase em todas as culturas
podemos encontrar no pensamento antigo o conceito que representa o principio
feminino como a sabedoria que combinava a maternidade e a virgindade. No mundo
mediterrâneo é a Sofia que vem representar de forma similar esse conceito, que
está diretamente relacionada com os antigos cultos à Ishtar, Ísis, Palas Atena,
Minerva e Astartéia. Essa concepção feminina representa uma fusão da ideia de
Sabedoria com a da Magna Mater, e é adorada sempre ao lado do ser supremo
masculino. Como Ishtar e a Virgem Maria , a Prajnaparamita
era em essência tanto mãe como virgem.
Isso quer dizer que é fértil, frutífera em seus bons atos e suas imagens
realçam a plenitude de seus seios, como provedora. Por outro lado, igual a uma
virgem, permanece intocada, intacta, inapreensível.
É impossível não
mencionar os Mistérios de Elêusis, consagrados em seu templo na Grécia ao culto
de Démeter e Perséfone. A primeira uma deusa agrária responsável pela fecundação
da terra e cujo nome sugere a maternidade e a segunda, sua filha raptada e aprisionada no submundo do Hades como
deusa infernal. Sendo que ambas as personificações são uma só conjugação manifestada dos atributos
da Deusa. Nas cerimonias Dioniso era parte integrante desses mistérios. Nunca saberemos quais eram os rituais iniciáticos de revelação que
ocorriam dentro do templo, mas pelos relatos dos antigos sabemos que estavam
diretamente relacionados com a morte e o mistério da transmigração da alma.
Seus adoradores adquiriam o conhecimento que se revelado para estranhos levaria à morte do
iniciado.
Observando
todos esses aspectos do tantrismo, desde suas cerimonias orgiásticas e rituais de iniciação,
até a compreensão do principio feminino como conceito primordial da sabedoria
chegamos ao ponto mais importante dos segredos ocultos do passado distante, de
todas as religiões de mistérios elaboradas pela humanidade ao culto da deusa. O
que os antigos estudiosos buscavam ocultar é o potencial gerador do feminino e
a ligação indispensável do pensamento sobre a Criação com o poder da mulher em
suas liturgias. Esse é o grande segredo do ocultismo. A conceituação da virgem
que concebe, que nos parece contraditória, à luz da ciência hoje tornou-se a
mais absoluta realidade dentro das novas técnicas de inseminação. A genética nos ensina que os fatores que levam ao
desenvolvimento do macho no útero, o cromossoma Y é uma ínfima mutação da fêmea,
e que o desenvolvimento genital masculino é apenas um avantajamento dos órgãos
reprodutores femininos em sua fisiologia. Por analogia, como os sábios do
passado puderam observar, a força primordial do Universo está associada às
potências femininas primordiais e que são base da vida no planeta e talvez a
base da verdadeira semente que originou todo o mundo fenomênico em suas
atividades primordiais no primeiro segundo do Big Bang. É disso do que se trata o
Tantra, o culto ao fator gerador das 10 mil coisas, a união dos opostos onde é
o masculino o complementar, mas é o feminino o indispensável para a preservação
da vida cósmica. Com a destruição dos bosques sagrados na Europa e o incêndio proposital
do templo de Elêusis pelos fanáticos cristãos, adoradores de seu deus masculino,
e que abominavam a sexualidade como coisa pecaminosa todos esses conhecimentos arcanos foram velados, até que o avanço da ciência pudesse demonstrar uma verdade
indiscutível. Apesar do culto oficial a uma trindade amorfa pela Igreja o povo
consagrou o culto à mãe do Cristo, da mesma forma que os antigos pagãos
adoravam Ísis e suas respectivas manifestações, ecos do mais remoto
conhecimento da humanidade e de seu inconsciente coletivo, a verdadeira herança
da sabedoria milenar.
No Livro dos
Mortos tibetano a alma é aconselhada pelo lama assistente a reconhecer como
projeções de sua própria consciência todas as formas vistas, tanto as
celestiais quanto as infernais, e quando as cenas do inferno estão prestes a
surgir, o lama diz:
“Não tenhas medo, não tenhas medo, ó tu, de nobre nascimento! As fúrias do Senhor da Morte colocarão uma corda em volta de teu pescoço e o puxarão; cortarão tua cabeça, extrairão teu coração, arrancarão teus intestinos, sugarão teus miolos, beberão teu sangue, comerão tua carne e roerão teus ossos; mas em verdade teu corpo é da natureza do vazio; tu não precisas ter medo”.
“Não tenhas medo, não tenhas medo, ó tu, de nobre nascimento! As fúrias do Senhor da Morte colocarão uma corda em volta de teu pescoço e o puxarão; cortarão tua cabeça, extrairão teu coração, arrancarão teus intestinos, sugarão teus miolos, beberão teu sangue, comerão tua carne e roerão teus ossos; mas em verdade teu corpo é da natureza do vazio; tu não precisas ter medo”.
“Não
fiques aterrorizado; não fiques assustado. Se todos os fenômenos existentes –
que brilham e se irradiam como formas divinas - forem reconhecidos como
emanações da própria mente, o Estado de Buda (Samadhi) será alcançado nesse
mesmo instante. [...]Aquele que reconhecer suas próprias formas-pensamento
através de um ato importante e através de uma palavra, atingirá o Estado de
Buda.”
![]() |
| Akasha-Bhairava |
1) El Budismo - Edward Conze - Fundo de Cultura Económica - México - 1997
2) As Máscaras de Deus, Mitologia Oriental - Joseph Campbell - Ed. Palas Athena - 5º ed. - 2004
3) As Máscaras de Deus, Mitologia Primitiva - Joseph Campbel - Ed. Palas Athena - 1992
4) História das Crenças e das Ideias Religiosas - I - Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis - Mircea Eliade - Ed. Zahar -2010
terça-feira, 24 de junho de 2014
Filme de Terror
Na masmorra fria grita o condenado
pela tortura
suor escorre pela espinha
vazio na barriga
pesadelo que aflige em vigília
como mesa servida para dois
silenciosa
escura noite desce
na neblina
a vitima padece antes da hora
espera o destino
que se avizinha
como ser acorrentado
olhando com desamor
o outro sem palavras
se debate o monstro como pode na alcova
o verdugo prepara a lâmina fina
para executar a derradeira hora
esperando logo a sessão finda
para alívio geral da platéia
quando o salão todo se ilumina
e todo mundo vai embora...
sábado, 7 de junho de 2014
Imortalidade e Reencarnação ou A Jornada do Guerreiro
“Quando Asuras e Devas
jogam seu dado, as apostas são a Vida ou a Morte”.
“Eles lançam o dado do
maior interesse ao planeta”
“As águias, no alto da Árvore
Sagrada da Vida, saboreiam o mel”
“Dizem que é lá no alto
onde os figos são mais doces”
“A Porta do Sol espera
para quem é sensato, mas é uma barreira para os insensatos”
“Diz a Mente Superior: -
Para os verdadeiros crentes eu me transformo numa ponte que cinge o mar
profundo”
“O flutuar do afogado nos
lembra da catarse da alma que se foi”
“Quanto aos que se
entende que fizeram a travessia e foram libertados da morte; eles são Voz que
se transforma em fogo; Odor que se transforma em Rajada de Vento; Visão que se
transforma em Sol; Audição que se transforma em Ar; e Intelecto que se
transforma em Lua”. ( Vedantas )
"Deus é um senhor
jogador. Pode-se pensar no Universo como um gigantesco cassino, com dados sendo
jogados ou roletas sendo giradas todo o tempo. Você poderia pensar que possuir
um cassino é um negócio muito incerto, porque você se arrisca a perder dinheiro
toda a vez que os dados são lançados ou se gira a roleta. Mas em um número
enorme de apostas, as perdas e ganhos atingem um resultado médio que pode ser
previsto, embora o resultado de uma aposta individual não o possa".
(Stephen Hawking - O Universo Numa Casca de Noz)
Quando me dirigia para o
trabalho certa manhã escutando no rádio do carro meu programa preferido de
música clássica tive um insight a respeito de um dos aspectos mais flagrantes da imortalidade. Cada nota tocada
com esmero pela orquestra era como uma mensagem que chegava do passado até aquele presente repercutindo as impressões mentais do compositor ali impressas,
depositadas naquele padrão quântico de sons e silêncios que foram compostos
pela mente extasiada dele num processo criativo em tempos idos. Como uma
máquina do tempo estavam ali transportados novamente os seus sentimentos, suas angústias e
esperanças traduzidas naquela obra cheia de encantamento e formas sonoras,
variantes com nuances sutis e que representavam no seu conjunto a essência viva
do seu compositor, entre sons e silêncios, surpresas e desafios, ausências e
presenças de sonoridade. A audição da obra musical, em razão da sua organização
interna, portanto, congela o tempo que passa; como um pano fustigado pelo
vento, atinge-o e dobra-o. De modo que ao ouvirmos música, e enquanto a
escutamos, atingimos também uma espécie de imortalidade. Pode-se ter certeza
que em nosso planeta só os seres humanos planejam e criam sons artificiais e
usam instrumentos como ferramentas para realizar tal fim. Não é por nada que a
música esteve por milênios associada às práticas religiosas e aos deuses
imortais e com certeza também está diretamente ligada aos nosso ciclos vitais psicofisiológicos,
de forma complexa, às nossas ondas cerebrais e aos ritmos cardíacos e
respiratórios, capacidade da memória e intensidade de atenção. A humanidade
sempre atribuiu aos seus deuses primordiais, a criação das canções e dos
instrumentos musicais. A música sempre foi, portanto, atributo divino, como
dádiva, sopro da alma que toma forma de melodia perene no eterno ritual da
humanidade.
Ser e existir possuem
quase o mesmo sentido na sua forma de interpretação comum. Mas será a
existência individual atributo exclusivo do ser ? O individuo, na sua certeza
da condição finita do ser, em seu afã de permanência perene desenvolve seu
sistema de crenças como um alento, um sentimento de posse exclusiva do seu
existir. Apesar da própria vida determinar o caminho do ser, ele se ilude sobre
o domínio do seu livre arbítrio, do seu existir e sobre sua posse definitiva,
como patrimônio pessoal. Do ponto de vista do Karma cada individuo representa
uma pequena parcela, um pequeno elo de uma existência infinita, um encadeado
que no plano físico é mantido pela genética e no plano espiritual pela
senciência do ser, como pensamento.
Apesar da consideração
que temos com todos os entes da Criação, como parte integrante da biosfera e de
nossa existência no planeta de forma indissociável do meio ambiente, diferente
dos outros seres, aos sencientes, que compõem a humanidade, foi delegada a
chama do entendimento que leva ao abismo da certeza da morte e a ilusão do
isolamento do ser, da dissociação irreal de sua própria natureza, que pretende
adversa. Esse isolamento é razão fundamental e origem primordial da maioria das
patologias existenciais, ora psíquicas, ora somáticas em uma complexidade
exuberante. É o mal divino que acomete ao mortal, a parcela ciente da própria
finitude que se vê e percebe a inexorabilidade temporal. A certeza olímpica
desse proto-deus só é amenizada por alguma fé que lhe garanta o consolo de uma
existência duradoura além túmulo. É esse o ponto crucial onde os poderosos,
desde a mais remota antiguidade, buscaram atingir a imortalidade com a ereção
de tumbas e túmulos majestosos, e a realização de sacrifícios expiatórios, e
assim pretender deixarem sua impressão registrada na eternidade, para gaudio de
arqueólogos que por fina ironia tem garantido a perenidade de seus ocupantes,
no passado poderosos, que por puro egoísmo legaram à posteridade suas
impressões e registros históricos. Do Egito à Suméria, da China ao Japão,
dinastias pretendem através de suas obras, hoje ruínas, a permanência
impossível de Ozimandias.
No Ocidente é normal o
homem comum confundir o conceito de imortalidade associada à crença
judaico-cristã sobre a alma, e as doutrinas da reencarnação são normalmente mal
compreendidas pelos estudiosos Ocidentais, e misturados os conceitos da metafísica
indiana com as doutrinas neoplatônicas como se fossem um só.
Na verdadeira doutrina
indiana da reencarnação nada passa de um corpo para outro e as palavras em
sânscrito empregadas para “renascimento” são usadas no mínimo em três sentidos
distintos:
1)Em relação à
transmissão de características físicas de pai para filho, no sentido biológico
de palingenesia, como “a reprodução dos caracteres ancestrais sem alteração”
2)Em relação a uma
transição de um plano de consciência para outro, processo efetuado no próprio
individuo e em geral numa vida e só nessa, como por exemplo o tipo de
renascimento que está implícito no ditado que diz: “A menos que nasças de novo”
e do qual a palavra final é deificação.
3)Em relação ao
deslocamento ou peregrinação do Espírito de um corpo-alma a outro, que ocorre
sempre quando o veículo composto morre e outro é gerado, do mesmo modo que a
água poderia ser despejada de um recipiente para o mar e ser retirada de lá com
outro recipiente; continuaria a ser a mesma substância, mas não seria “aquela”
água, a menos que se atribua uma identidade e uma forma temporárias ao conteúdo
do recipiente.
Na doutrina universal,
com raízes profundas nas mais diversas sabedorias do Oriente e Ocidente de
"uma essência e duas naturezas", as duas mentes , uma que subsiste no
ato do pensamento e outra na execução da ação, são as "naturezas" do
ente relativo. Como três, elas correspondem à vida contemplativa, à ativa, e à
vida de prazer. Então podemos imaginar que: "antes do Princípio estava a
Mente, e a Mente estava com Deus e a Mente era Deus" segundo infere a
tradição oculta. Como diz o Maitri Upanishad: "dizem que a mente é dupla,
pura e impura: de jugo, quando (a mente) se agarra ao objetivo do desejo e de
libertação quando está desligada do objetivo."
A estrutura tripartite
consagrada por Platão, que compõem o sistema holístico do individuo, também
revelada pela tradição da Cabala e integrante como conhecimento da tradição
oculta estabelece um núcleo anímico parassimpático, uma esfera correspondente à
alma individual e um Espírito imanente que permeia todo o Universo e induz a
forma, como uma impressão de sua imagem, do ente relativo no plano terrestre.
Enquanto a alma individual conduz a persona e glorifica a existência na Terra,
o Espírito é o fio condutor da imortalidade, pois ele é a verdadeira substância
do Ser no plano astral. A divisão de fato não existe já que a estrutura é
indivisa, mas quando perece o corpo mortal pouco resta do núcleo parassimpático
e da alma individual a não ser uma impressão no plano sutil que logo desvanece.
É o Espírito que permanece como fonte inesgotável da Sabedoria Universal para
continuar na sua jornada. É Dele a sensação de imortalidade que intimamente
todos sentimos.
Para Plotino, os deuses
"nunca aprendem" e "não se lembram"; e pelo mesmo motivo,
ou seja, por não existir esquecimento, não há necessidade para lembrar ou
aprender. É apenas para a mente individual do ente relativo ou mente variável,
essa nossa mente que esqueceu tantas coisas, que é desejável ser ensinado e
recordar-se o que se aprendeu. O que se pode ensinar a essa mente é o que ela
esqueceu, segundo definem as doutrinas esotéricas tradicionais; por isso, diz
Meister Eckhart, "só quando a alma souber tudo que há para saber podemos
passar para o Bem Desconhecido."
Na cosmologia contemporânea pensamentos da mesma ordem começam a surgir como hipótese sobre a geração da totalidade, os homens sábios da ciência se voltam para antigos conceitos e paradigmas para tentar desvendar os mistérios do Universo:
Na cosmologia contemporânea pensamentos da mesma ordem começam a surgir como hipótese sobre a geração da totalidade, os homens sábios da ciência se voltam para antigos conceitos e paradigmas para tentar desvendar os mistérios do Universo:
"Na teoria
newtoniana, na qual o tempo era um fenômeno infinito e existia por si, seria
possível perguntar: "O que Deus fazia antes de criar o Universo ?"
Como disse santo Agostinho, não se deve ser leviano a esse respeito como foi
aquele homem que disse: "Ele preparava o inferno para aqueles que
prescrutam seus mistérios." Essa é uma questão séria que tem sido
discutida em todas as épocas. De acordo com santo Agostinho, antes de Deus
criar o céu e a terra, Ele não criou absolutamente nada. De fato isso é muito
próximo das ideias dos cosmologistas contemporâneos."
"Na relatividade
geral, por outro lado, tempo e espaço não existem independentemente do Universo
ou um do outro. São definidos por mensurações dentro do Universo, como o número
de vibrações do cristal de quartzo em um relógio ou o comprimento de uma régua.
É perfeitamente concebível que o tempo, definido desse modo, dentro do
Universo, tenha um valor minimo e um valor máximo - em outra palavras, um começo
ou um fim. Não faria sentido perguntar o que acontece antes do começo ou depois
do fim porque tais eventos não seriam definidos" ( Stephen Hawking - O
Universo numa Casca de Noz )
O Ritmo, Constante
Universal da Criação, eterno pulsar da Vida, é condição indispensável como
frequência da energia que ocupa continuamente o não existir primordial, o
Sunnyata. Ali habita toda a magnificência do Manvantara, o dia de Brahma, o
amplo salão onde pulsa a amplitude da vida numa frequência vertiginosa, como um
cinematógrafo tridimensional, que permeia todo o existir do Universo, como
atributo da existência da matéria. O troar de miríades de sóis na infindável
disputa entre as forças centrifugas e centrípetas, eterna tensão da energia
nuclear e da gravidade, dá o ritmo frenético de forças titânicas, de onde geram
as coisas da matéria planetária, origem primordial dos elementos atômicos
forjados pelo ferreiro cósmico em seu constante divino martelar para criar o
mundo das aparências.
No plano humano, a
oposição das forças, em constante mutação cria a devida distinção para gerar o
primeiro movimento, ritmo necessário no campo espaço temporal que denominamos
vida, dimensão onde habitam as dez mil coisas com seus atributos e potenciais.
Esse ritmo vital é a tensão entre o arco e a lira, entre Eros e Tânatos.
Conforme Platão: “A Harmonia do mundo ordenado é uma harmonia de tensões
opostas, como a lira ou o arco”. Para qualquer tipo de movimento é preciso
existir uma interação entre forças opostas. A ausência de contrários é a
ausência de progresso, segundo Blake. E como condição basilar do esoterismo, a
ausência do “Coincidentia Opositorum” seria a ausência do principio vital que
fecunda o Universo.
Nessa membrana física
pulsante, fímbria que subsiste e contém a matéria densa e a matéria sutil, o
ser, o fio de ligação, aos poucos se rompe, se desvanece, em energia pura, e a
existência assume sua verdadeira vocação, de dimensão Una, semente primordial,
partícula de luz, hólon, parcela complementar do ato da Criação, parte do
clarão do Big Bang ainda presente além do véu espaço temporal da nossa pretensa
realidade, a Ilusão de Maya, desde o Inicio do Tempo até o Juízo Final previsto
pelos antigos profetas, não no sentido bíblico, mas no seu aspecto fenomênico,
como reapropriamento da energia que não se exaure contida no primeiro ato da
Criação, mas que se converte em outra forma de energia e reverte seu destino
novamente para o início.
A ausência ocasional do
ritmo cósmico estabelece o retorno à Fonte, ao centro da roda, onde o movimento
cessa em sua dimensão imaterial e atemporal. É quando ocorre a Queda em direção
á massa escura que permeia o Todo. O Pralaya da energia, a noite de Brahma que
desce sobre o quantum de energia em seu retorno fenomenal. Onde acaba o tempo, acaba
o ritmo da Criação.
A quantidade ou espécie
de tempo em que a continuidade do caráter e da consciência do “ser” pode ser
mantida num espaço dimensionado e numa base material é irrelevante. Mesmo assim
o destino real da consciência de um indivíduo depende de si mesma, quer ela
deva ser “salva” ou “libertada”, quer seja destinada a entrar de novo no Tempo
(Pitryana) ou ser “perdida” (Nirrtha). “Não se pode pisar duas vezes na mesma
água, pois novas águas estão sempre fluindo para nós” (Heráclito).
A Odisséia da Alma -
![]() |
| Aquiles - Louvre |
A Odisséia da Alma -
Vamos encontrar desde
tempos imemoriais referências a questão da imortalidade da alma. Na Antiguidade
os homens acreditavam que a alma do morto ficaria aprisionada pela eternidade
na escuridão do Hades. Na “Odisséia”, Ulisses em seu tortuoso retorno da guerra
de Troia, na tentativa de voltar ao lar, encontra Circe, com quem mantem um
relacionamento por um bom tempo, na ilha mágica da feiticeira. Alguns contam
que teve vários filhos com ela. Os companheiros de viagem do herói aborrecidos
por uma vida fausta, mas sem emoções instam-no ao regresso e Circe não cria
obstáculos a sua partida e ainda o auxilia para que encontre o rumo de casa.
Entre todas as instruções ela diz para o rei guerreiro: “Presta atenção, a
próxima escala da tua navegação deve te levar ao país dos Cimérios, ali onde o
dia nunca aparece, o país da noite, do nevoeiro eterno, onde se abre a boca do
mundo infernal”. Dessa vez Ulisses terá que enfrentar muito mais que as normais
aventuras dos mortais, mas terá diante de si a fronteira do mundo dos mortos.
Circe explica detalhadamente os rituais que Ulisses terá que proceder: “...irás
a pé até uma fossa, terás farinha contigo, leva um carneiro, degola-o, espalha
o seu sangue, e verá surgir do chão a multidão dos eídola, dos duplos, dos
fantasmas, das almas dos mortos. Deverás reconhecer e agarrar a alma de
Tirésias, o adivinho, fazê-lo beber o sangue do teu carneiro para que ele
recupere certa vitalidade e te diga o que deves fazer”. Ulisses vai até aquele
país e no local cumpre os ritos necessários. Diante da fossa degola o carneiro
e deixa seu sangue pronto para ser bebido. Então percebe vindo em sua direção
os oútis, os que são ninguém. São os sem nome, os nónymnoi, os que não têm mais
rosto, que não são mais visíveis, que não são mais nada. Formam uma massa
indistinta de seres que outrora foram indivíduos, mas dos quais nada mais se
sabe. Dessa massa aterrorizante sobe um rumor indistinto e profundo. Eles não
falam, só produzem um barulho caótico. Ulisses aterrorizado teme ser absorvido
por essa massa disforme, teme ser perdida em meio ao barulho sua palavra
ardilosa, sua glória e sua fama ser engolfada pela massa e sua celebridade ser
abandonada nesse esquecimento de morte. Ele corre o risco de perder-se nessa
noite, mas de repente vislumbra Tirésias.
Tirésias bebe do sangue e
logo passa a contar para o herói seus passos futuros, sua volta para a amada
esposa, e também lhe dá notícias de todos, os vivos e os mortos que não
retornaram de Troia. Ulisses então enxerga as sombras de alguns companheiros da
guerra, vê sua mãe, e reconhece Aquiles entre os mortos e o interroga. Aquiles
após beber o sangue que lhe restitui a vitalidade, nesse momento em que toda a
hélade canta seus feitos, num eterno sentimento de orgulho de sua glória, no
auge do seu kléos, palavra que significa "ouvir o que os outros dizem
sobre você". Um herói grego determina assim o seu kléos por realizar
grandes obras ou participar de batalhas, muitas vezes através de sua própria
morte. Ele que pretendia que sua superioridade fosse reconhecida até mesmo no
inferno responde à Ulisses: “ Eu preferia ser o último dos camponeses
enlameados, lastimáveis em meio ao estrume, o mais pobre vivendo à luz do sol,
a ser Aquiles neste mundo de trevas que é o Hades”. Com essas lamúrias Aquiles
contraria o que tinha antes proclamado na “Ilíada”, naquela obra ele dizia
preferir uma vida curta de glórias a uma vida longa e sem aventuras para sua
mãe Tétis que adivinhava grave destino. Para ele antes não havia hesitação em
escolher a vida gloriosa, a morte heroica em plena juventude, pois a glória de
uma vida breve que termina na “bela morte” do guerreiro valia bem mais que o
resto. Agora, junto a Ulisses, sua sombra incorpórea afirma chorosa exatamente
o contrário. Aprisionado no mundo dos mortos diz ter preferido uma vida
inglória de um sujo camponês em algum recanto obscuro da Grécia para seu antigo
companheiro de batalha.
Mas na saga de Ulisses o
assunto da mortalidade é tema recorrente nesse verdadeiro processo de evolução
do herói em direção ao seu destino derradeiro. Ainda tentando retornar, após a
morte de toda sua tripulação, sozinho perante as intempéries é salvo por
Calipso em sua ilha mágica, que não existe nem no plano dos homens, nem dos
deuses, no imenso Oceano além do espaço e do tempo. Lá Calipso o recolhe
exaurido pelo naufrágio, quase morto afogado. Nesse mundo, à parte de tudo, vai
morar toda uma eternidade, cinco, dez, quinze anos, tanto faz, pois a contagem
do tempo humano não existe mais. Cada dia se assemelha ao outro, em seu interlúdio
amoroso com Calipso, uma relação apaixonada, sem mais contato com quem quer que
seja, uma solidão total a dois. Num tempo além do tempo todo dia é igual ao
anterior. Na ilha de Calipso, Ulisses está fora do mundo. Calipso é sempre
solicita e amorosa com ele. Mas é como determina seu nome Kalypsó, que se
origina do verbo grego kalyptéin, “esconder”, aquela que se esconde num espaço
além de tudo e esconde Ulisses dos olhares do mundo.
Por intervenção direta da
divina Atena junto ao seu pai Zeus, sob a justificativa que todos os heróis
vivos haviam retornado aos seus lares desde a guerra de Troia, pede clemência
para Ulisses, que é o único herói a permanecer ainda cativo na ilha de Calipso.
Diante a insistência da filha, Zeus compadecido joga os dados e lança a sorte:
Ulisses deve voltar. Decisão divina que deve ser apressada, pois é necessário
que Calipso o permita. Que Hermes então se encarregue do assunto. O deus
emissário fica descontente, a ilha mágica fica muito longe de tudo, que está em
lugar algum e ele nunca havia posto seus pés lá. É necessário cruzar uma imensa
extensão de mar Oceano, além dos limites da realidade.
Veloz como o pensamento
ele com suas sandálias aladas desembarca a contragosto na ilha, que
imediatamente o maravilha, pois se parece um pequeno paraíso. Há jardins,
fontes, bosques, nascentes, flores, grutas habitáveis e mobiliadas onde Calipso
tece e fia entre um momento e outro de amor com Ulisses em suas acomodações
confortáveis e cobertas de sedas. Hermes fica maravilhado, mas não pode deixar
de comunicar à Calipso a mensagem do deus. Esta o reconhece imediatamente e
pergunta a razão da sua visita. Ele responde: “Se dependesse de mim eu não
teria vindo, mas tenho uma ordem de Zeus. As coisas estão decididas, deves
deixar Ulisses partir”. Sem escolha, mas sem deixar de admoestar o ciúme dos
deuses por ela estar vivendo bem tanto tempo com um herói mortal ela responde:
“Está bem, aceito, vou mandá-lo de volta”.
Enquanto isso Ulisses
estava sozinho em um alto promontório de onde avistava o mar terrivelmente
encapelado que se arrojava contras as pedras da ilha. Com toda a tristeza do
mundo chorava amargamente seu destino, chorava de remorso pela esposa Penélope,
pela sua Ítaca, a terra natal perdida, seus membros tremiam convulsionados. O
homem grego afastado por força de sua polis é como um desgarrado. Calipso sabia
que Ulisses ainda pensava no regresso, que ele era um homem do retorno. Mas
guardava uma falsa esperança de mantê-lo ao seu lado, de fazê-lo esquecer do
lar, da esposa e também que tinha sido no passado. Seu percurso tirou-o do
caminho dos homens, para levá-lo ao caminho dos mortos, entre os Cimérios, até
a extrema fronteira do mundo da luz. Agora ele está fora de combate, nesse
limbo isolado de tudo na extensão do mar Oceano. No mundo dos mortos, entre os
espectros ouvira Aquiles lhe dizer como é terrível estar morto, como é terrível
ser um espectro sem vida e consciência, essa sombra anônima que é o pior futuro
que um homem pode imaginar. Calipso vai tentar lhe oferecer a imortalidade,
permanecer jovem para sempre, não tendo mais que temer a morte e a idade
provecta. Ela tinha plena consciência de sua oferta, pois conhecia as
armadilhas do destino. Conhecia o destino da Aurora, Éos que caíra de amores
por um mortal que se chamava Títono. Raptara-o para viverem sempre juntos, e
pedira a Zeus, com a desculpa de que não poderia mais se separar dele, que o
fizesse imortal. Zeus, com um sorriso ardiloso concedeu-lhe a imortalidade.
Assim sendo, no Olimpo, onde habitava Aurora, veio viver o jovem Títono, com o
poder de nunca morrer, mas aos poucos foi envelhecendo, e aos duzentos anos
tinha a aparência de um couro enrugado e encarquilhado, que não podias mais
falar, nem se mexer, alimentando-se de nada. Um fantasma vivo.
Não parece ser essa a
dádiva pretendida por ser humano algum na Terra. Calipso, entretanto,
oferece-lhe a não morte e a eterna juventude, mas mesmo essa dádiva iria
condená-lo a uma morte eterna em vida e privá-lo de seus atributos de herói
guerreiro que retorna glorioso. Se aceitasse essa oferta teria que abrir mão de
tudo isso. Para os gregos o que oferecem para Ulisses não é a imortalidade, mas
a imortalidade anônima, sem brilho e sem glória (akléos). Uma vida perpétua na
escuridão, sem que ser humano algum mencione seu nome, sem que nenhum bardo
cante sua vitória. Como diz Píndaro em um dos seus poemas, quando uma façanha
foi realizada, não deve ser “escondida”. Para que a façanha atinja a
imortalidade é necessário que seja cantada em prosa e verso. Se ele continuar
na ilha, não haverá mais Odisséia, nem existirá Ulisses, então o dilema se
resume numa imortalidade anônima, que não o tornará diferente dos espectros do
Hades, que aos poucos perderam sua identidade ou como mortal, será imortalizado
pela glória eterna. Ele decide partir. Ele não quer mais dividir seus lençóis
com essa bela ninfa com quem convive há mais de dez anos. Tudo que deseja é
reencontrar sua vida mortal e inclusive morrer se for preciso. Ele afirma seu
desejo por Penélope, que pode não ser tão bela como a ninfa, mas ela é sua
amada, sua esposa, sua pátria. “Muito bem”- Diz Calipso, “compreendo”. Calipso
então o ajuda o herói a construir uma jangada de troncos atados com a mais
resistente fibra por ela produzida para formar uma jangada sólida com um
mastro. Assim Ulisses deixa a ilha para novas aventuras em direção da
eternidade. Retorna ao lar, mas a passagem para a imortalidade fica para sempre
selada pela ira de Poseidon que bloqueia o caminho da eternidade.
Graças à decisão do
personagem, que encontrou sua sabedoria nessa jornada arquetípica podemos
inferir que ao alcançar a possibilidade de uma vida de eternidade Ulisses na
verdade busca resgatar sua humanidade, prefere os altos e baixos da vida
mundana, a incerteza e o perigo do retorno ao mar em uma jangada, a certeza da
velhice e da morte junto aos seus, o retorno ao seu reino natal, junto ao afeto
do filho e da esposa. Para o homem comum a vida eterna, tão desejada por
alguns, propalada nas religiões de mistérios do Ocidente, se assemelha mais a
uma maldição, como a que ocorreu a Títono, pois tais memórias e identidade
perpétua no individuo seriam com certeza um fardo, um castigo, em vez de uma
graça para alguém fadado à eternidade, mesmo que vivendo entre os deuses. No
Ocidente a ideia, ou ênfase, na dignidade da vida individual, de para cada
alma, um nascimento, uma morte, um destino, uma maturação da personalidade que
se estende para o além, onde seja, no inferno, no purgatório, no céu, em que a
alma do morto permanece constituída é um dos dogmas mais sagrados das
principais religiões de origem semítica. No Oriente a ideia de continuidade da
personalidade inexiste. O centro de atenção não é o individuo, mas a mônada, à
qual não pertence intrinsecamente individualidade alguma, mas que transita de
um ente relativo para outro, de larva a deus, de deus a soldado, dentista,
alfaiate, numa sucessão contínua, como um cordão que liga tudo ao grande Oceano
Cósmico da Vida, onde cada porção de sua água nunca é igual a outra.
Tao e Zen -
No Zen Budismo e no Taoismo,
as práticas de meditação servem para elevar o individuo ao contato com a
verdadeira natureza do Bodhi, que é nada mais, nada menos, que a ligação com a
Verdadeira Essência ( Prajna ) da Sabedoria. O Prajna e o Sunnyata andam sempre
de mãos dadas, segundo os mestres do Zen, o Vazio é o conteúdo indistinguível
do Prajna, que deixa de ser uma mera concepção de conhecimento que lida com
objetos relativos; é um conhecimento da mais alta ordem possível na mente
humana, pois é a centelha daquilo que constitui fundamentalmente todas as
coisas.
Na terminologia
filosófica chinesa, hsing é muitas vezes empregado para designar o conteúdo
fundamental, ou aquilo que sobra depois de se retirar tudo que é acidental da
alguma coisa. Hsing é como algo fundamental no ser de uma pessoa ou de uma
coisa, embora não deva ser confundida como entidade individual, como uma
semente ou núcleo que resta quando todos os invólucros exteriores são
removidos, ou como uma alma que escapa do corpo após a morte. Hsing significa
aquilo sem o qual nenhuma existência é possível ou imaginável como tal. Como
sua formação morfológica sugere, hsing é “um coração ou uma mente que vive”
dentro do individuo. Em linguagem figurada pode ser denominada Força Vital.
Segundo o grande mestre
Zen Hui-neng: “o hsin (mente ou coração) é a propriedade e Hsing é o
proprietário: o proprietário governa a propriedade; quando há hsing, há
proprietário; quando o hsing se ausenta, desaparece o patrão; quando há hsing,
a mente (hsin) e o corpo existem; quando não há hsing, corpo e mente são
destruídos. O Buda deve ser construído dentro do hsing, e não há que ser
procurado fora do corpo."
Com isso, Hui-neng
procura explicar-nos de forma mais clara daquilo que ele entende por hsing. É a
força dominante em todo o nosso ser . É o principio da vitalidade física e
espiritual, Não só o corpo, mas também a mente, em seu sentido mais elevado,
funcionam por causa da presença de hsing em ambos. Quando não há hsing, tudo
está morto; mas isso não significa que hsing seja alguma coisa à parte do corpo
ou da mente, que se introduz nele para acioná-lo, e que o abandona por ocasião
da morte. Esse misterioso conceito de Hsing não é contudo de natureza lógica,
mas um fato que pode ser experimentado em nossa existência. Hui-neng chama-o tzu-hsing
(natureza própria ou Ser-em-si), no seu texto do “T’an-ching”.
Dentro desse conceito o
Zen pretende transcender a ideia do dualismo, já que na própria natureza
original existe conhecimento Prajna, pois conhecer é ser e ser é conhecer, no
sentido da percepção do si-mesmo. A natureza reflete-se em si mesma e isso é
auto-iluminação, inexprimível em palavras.
A ideia motivadora de
mudança e transcendência está expressa no sermão do fogo de Buda:
"Tudo, Bhikkhus, se incendiou. Que tudo, Bhikkhus, se incendiou ? O
olho se incendiou, o visível se incendiou, o conhecimento do visível se
incendiou, o contato com o visível se incendiou, o sentimento que nasce do
contato do visível se incendiou, seja prazer seja dor, seja nem prazer nem dor.
Por que fogo é ele atiçado ? Pelo fogo da lascívia, pelo fogo do ódio, pelo
fogo do engano ele é atiçado, pelo nascimento, idade, morte, dor, lamentação,
pena, sofrimento, desespero ele é atiçado, isso é o que digo. O ouvido...diz. O
nariz...diz. A língua...diz. O corpo...diz. A mente...diz.
Sabendo disso, Bhikkhus, o homem sábio, seguindo a via ariana, erudito
em lei, enfastia-se do olho, enfastia-se do visível, enfastia-se do contato com
o visível, enfastia-se do sentimento que nasce do contato com o visível, seja
ele prazer, seja ele dor, seja ele nem prazer nem dor. Enfastia-se do
ouvido...dor. Enfastia-se do nariz...dor. Enfastia-se da língua...dor.
Enfastia-se do corpo...dor. Enfastia-se da mente...dor.
Quando se enfastia dessas coisas,
torna-se vazio de desejo. Quando se enfastia do desejo torna-se livre. Quando
livre, sabe que está livre, esse renascimento está no fim, a virtude
realizou-se, o dever foi cumprido, e que não há mais volta a este mundo; e
assim se sabe."
A ciência olha com
desconfiança para tais afirmações baseadas na tradição humana, na sua tentativa
incansável de reduzir todos os fenômenos da natureza e medir seus efeitos no
plano material. Assim os cientistas pretendem a existência de forças, no
sentido de vontades cegas, enquanto o animismo tradicional, que também é uma
espécie de filosofia, personifica essas forças e atribui a elas o livre
arbítrio. Uma das teorias (Teoria-M) dos cosmólogos afirma que nosso espaço tem
nove ou dez dimensões, mas acredita-se que seis ou sete sejam enroladas em
escalas muito pequenas, restando três dimensões que são grandes e
aproximadamente planas. É um axioma da ciência que a visão do observador define
em larga medida os fenômenos observados. O principio Antrópico diz que vemos o
Universo do jeito que ele é, ao menos em parte, porque existimos, em oposição a
ideia dos fisicistas de uma teoria unificada, totalmente preditiva, na qual as
leis da natureza são completas e o mundo é do jeito que é, pois não poderia ser
de outro modo. Os cientistas se esforçam para estabelecer a posição real e a
velocidade de partículas subatômicas através de cálculos de probabilidade
proporcionados pela física quântica, mas seus resultados mais se assemelham às
crenças, do que a uma realidade objetiva no sentido cartesiano, num
determinismo absolutamente relativo. Existem milhões de probabilidades para o
curso das partículas em miríades de dimensões espaço-temporais possíveis
afirmam os sábios da ciência. Poderia nossa verdadeira existência seguir
paralelo semelhante?
"o conhecimento da
posição de uma partícula é complementar ao conhecimento de sua velocidade ou
impulso. Se conhecemos uma com alto grau de precisão, não podemos conhecer a
outra com a mesma exatidão; mas temos que conhecer as duas para determinar o
comportamento do sistema. A descrição do espaço-tempo dos eventos atômicos é
complementar à sua descrição determinista" ( Princípio de Indeterminação
ou Complementaridade - Dr. Werner Heisenberg )
"Aquilo que mantém
entrelaçado o céu, a terra e o espaço entre eles;
Também a mente, com o
sopro da vida;
Apenas isso deve ser
reconhecido como o Espírito Único.
Rejeita qualquer outra conversa.
Essa é a ponte da
imortalidade"
( Mundaka Upanishad )
Imortalidade Cibernética
–
“E quando a informação
mesmo se torna o maior negócio do mundo, os bancos de dados sabem mais sobre os
indivíduos que os indivíduos sobre si mesmos. Quanto mais as memórias de dados
registram coisas a nosso respeito, mais deixamos de existir.”
(Marshall McLuhan – “Do
Clichê ao Arquétipo”)
O homem contemporâneo
vive em um limiar tecnológico, uma ultima fronteira onde a tecnologia produz de
forma autônoma saltos cada vez maiores em direção a uma mutação irreversível da
condição humana. Nessa rede global onde grande parte da população mundial está
inserida o homem cada vez mais se adapta à condição de membrana osmótica,
terminal e interface de entrada de dados para o imenso fluxo de informação que
transita pelos seus canais na velocidade da luz. Para muitos a realidade
intrínseca de suas vidas já é o meio das redes informatizadas. Suas impressões,
dados pessoais, gostos, pensamentos mais íntimos, hábitos, seu lado
numinoso e como não poderia deixar de ser, sua faceta mais sombria está ali
impressa de forma indelével, possivelmente para toda a eternidade. Informação
que o tempo não corrói sobre o que somos e queremos, sobre onde estivemos, quem
amamos, um banco de dados cheio de recordações existenciais.
Os estudiosos denominaram
antropoceno a época atual onde a humanidade atingiu seu apogeu como espécie
dominante no planeta. Poderia ser esse apogeu nada mais que o começo do fim da
humanidade como a conhecemos? Os seres orgânicos que denominamos humanos não
estarão aos poucos sendo absorvidos pela tecnologia que tão bem desenvolveram?
Imaginem que viajantes
extraterrestres um dia retornem no futuro para visitar nosso
planeta que já conheciam desde o primórdio dos tempos. Ficarão com certeza
surpresos e impressionados com as mudanças ocorridas nos últimos milhares de anos.
A superfície do planeta antes coberta com uma vegetação bruxuleante e cheia de
seres de todas as espécies e uma infinidade de vida habitando em seus oceanos
se transformou em um deserto cercado por mares contaminados, cheios de resíduos
de polímeros, com todas as dimensões possíveis e terras estéreis pelo excesso
de cultivo e devastação. Para tentar descobrir o que ocasionou uma mudança tão
drástica num bioma antes fértil e cheio de biodiversidade levado ao total
colapso terá que buscar nas tecnologias abandonadas pelos antigos moradores e descobrir em meio as ruínas de megacidades o esconderijo dos grandes centros
de bancos de dados onde por fim encontrarão registro do que restou da
humanidade. Suas mais profundas paixões, seus interesses, seu lado mais
obscuro, suas guerras e conflitos intermináveis, seu desprezo pelo meio
natural, sua voracidade traduzida num consumo desenfreado de bens e serviços,
tudo isso e muito mais estará registrado como memórias, impressões, como os
antigos hieróglifos pintados nas paredes das tumbas egípcias, memórias do que foi o auge
da civilização terrestre com seus aspectos positivos e negativos.
Quando esses astronautas
improváveis tentarem contato com a megaestrutura ficarão surpresos como os
sistemas continuam cumprindo fielmente suas funções, coletando e armazenando
energia de onde for preciso, consertando suas unidades, gerindo prioridades de
acordo com as normas e programas deixados por seus criadores nos imensos bancos
de memória sólida que preenchem profundos subterrâneos onde a proteção é mais
eficiente contra cataclismos cósmicos. Ao tentar conectar seus sistemas
inteligentes e verificar o conteúdo desses programas perceberão a busca
incontrolável de perenidade dessa espécie, seus apelos e esforços de enviar
suas sementes ao espaço profundo, de forma ainda rudimentar, embrionária, numa
última tentativa de perpetuar sua espécie agonizante de forma de vida. Quando
interagirem com as redes lógicas, talvez descubram em seus recônditos
verdadeiros universos paralelos, espaços virtuais majestosos com cidades,
estradas, florestas e biodiversidade criada à semelhança do bioma antes
existente, último engenho de uma civilização de biocarbono que emigrou para um
mundo paralelo. Lá se encontram as sombras, as identidades de todos, ou uns
poucos privilegiados, suas impressões e personalidades vivendo uma realidade
comandada por probabilidades infinitas em seu mundo digital comandado por algoritmos, na grande maioria
e por opção própria, unidades esquecidas de seu passado na superfície do plano
planetário, vivendo suas existências dentro dos paradigmas do fluxo de elétrons
em fontes capacitivas, cópias quase perfeitas de seus mestres em um arremedo de
imortalidade após o ocaso do mundo orgânico num processo interminável tipo “Game
Over” e reinicialização, onde todas as mentes estão ali programadas em uma rede planetária
cibernética vivendo a maldição da imortalidade do Judeu Errante. Estarão eles comandando a exoestrutura, o Deus Ex-Machina que os contém? Suas ações virtuais determinam a existência da
estrutura que os encerra? Possuem mitos de Criação para justificar suas
existências ? Cantam ainda seus últimos dias, o seu ragnarok?
Para os que desconhecem a lenda do Judeu Errante, também chamado Aasvero, Asvero, Ahasverus, Ahsuerus ou Ashver, personagem que faz parte da tradição oral do Ocidente cristão, dizem que trabalhava numa oficina de sapateiro ou num curtume na rua por onde passavam os condenados à morte pelos romanos, carregando suas cruzes. No dia da crucificação do Cristo, ao passar ele carregando sua cruz, derrubou-a na frente da loja do homem que tratou-o com desprezo e ironia. Jesus teria então o amaldiçoado a vida eterna, até o dia da Salvação das Almas. Como podemos perceber até a sabedoria popular acredita que a imortalidade, muito mais que uma benesse, pode ser uma terrível maldição.
Para os que desconhecem a lenda do Judeu Errante, também chamado Aasvero, Asvero, Ahasverus, Ahsuerus ou Ashver, personagem que faz parte da tradição oral do Ocidente cristão, dizem que trabalhava numa oficina de sapateiro ou num curtume na rua por onde passavam os condenados à morte pelos romanos, carregando suas cruzes. No dia da crucificação do Cristo, ao passar ele carregando sua cruz, derrubou-a na frente da loja do homem que tratou-o com desprezo e ironia. Jesus teria então o amaldiçoado a vida eterna, até o dia da Salvação das Almas. Como podemos perceber até a sabedoria popular acredita que a imortalidade, muito mais que uma benesse, pode ser uma terrível maldição.
Bibliografia:
1) O Que é Civilização - Ananda Coomaraswamy - Ed. Siciliano - 1992
2) A Doutrina Zen da Não-Mente - D. T. Suzuki - Ed. Pensamento - 1993 - 9° Ed.
3) O Universo Numa Casca de Noz - Stephen Hawking - Ed. Saraiva - 2012 - Ed. Especial.
4) Do Clichê ao Arquétipo - Marshall MacLuhan / Wilfred Watson - Ed. Record - 1973.
1) O Que é Civilização - Ananda Coomaraswamy - Ed. Siciliano - 1992
2) A Doutrina Zen da Não-Mente - D. T. Suzuki - Ed. Pensamento - 1993 - 9° Ed.
3) O Universo Numa Casca de Noz - Stephen Hawking - Ed. Saraiva - 2012 - Ed. Especial.
4) Do Clichê ao Arquétipo - Marshall MacLuhan / Wilfred Watson - Ed. Record - 1973.
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