"Há recessos desconhecidos na nossa mente que estão além do limiar da consciência relativamente construída. Não é correto designar esses recessos por subconsciência ou superconsciência. A palavra além é simplesmente usada porque é o termo mais conveniente para indicar o lugar. Mas o certo é que não há na nossa consciência nem além, nem debaixo nem em cima. A mente é um todo indivisível e não pode ser desagregada em pedaços" (D. T. Suzuki - Introdução ao Zen)
"Entrar na floresta sem mover a grama; entrar na água sem provocar nenhuma ondulação" (Zenrin Kushu)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Alquimista (de mim)
Disse Lieh Tzu
quando alcançou seu Samadhi:
"Fui carregado de Leste a Oeste, ao sabor dos ventos, como a folha de uma árvore, ou um ramo seco", até que por fim, "não sabia ao certo se era o vento que me estava carregando ou se era eu quem carregava o vento"
Solve et Coagula
Servo discípulo da Vida
O Nada, vazio que gera a Forma
onde me encontro no aqui agora
matéria densa que viaja
através do Tempo
Em mícrons, células se desfazem
terminam
Num átimo bilhões de outras
nascem
neste teletransporte infinito
de recriar constante
Vaso que nunca esvazia
Retorta
O ser que já não sou o que era
Dispersão quântica atômica
Numa alternação que nunca cessa
Até mesmo quando o conglomerado
se esvai finalmente
De volta a Fonte da Realidade Última
Coagula et Solve
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Vegana
Adivinha o corpo dela
em seu leve e gracioso
movimento
toda a sutileza
de ser aquela
onde a natureza
depositou essência milenar
da vida, o amor
Na feira orgânica
passeia faceira
entre sorrisos
sua canastra feiticeira
colhe a magia
da verde seiva bruta
alquimia pura
que acolhe solar
energia brincante
Toca na banda, faz yôga
com certeza é ativista
ecológica, feminista
defende direitos animais
não come a carne
e não quer deixar
ninguém mais comer
será que um dia ela irá me seduzir?
será que ela ainda vai me surpreender?
veganinha te espero
sábado, 14 de janeiro de 2017
Quietação - O Som do Silêncio
Quem muito fala nada sabe
Quem sabe cala
diz o mestre
revertendo ilogicamente
o próprio axioma de sabedoria
Sentar em silêncio
em meio ao burburinho
da urbe
que nunca adormece
significa desafio
da forma sobre o conteúdo
mente primal
ainda treinada / condicionada
pela caça e coleta
de gens devoradores de planetas
herdados de abissais
deuses sem nome
A quietação é obra perdida
na superficial tecnologia interativa
tipo touch screen
num átimo aqui estou
e não estou
Estou aqui?
Ou habito distante pulsar
nas profundezas da galaxia
como farol solitário em rocha bruta
emitindo sinais, partículas
fótons, hólons
do cerne indivisível
para a imensidão negra
da matéria escura?
Oculta o véu da sacerdotisa
eterno mortal segredo
daquele que ausculta
o bater perpétuo da bigorna
e o rumor da forja no vácuo absoluto
Ying-Yang que emana
das Potências
na frágil teia que agrega
este Universo
De volta à esfera diminuta
em sua órbita solar
deparo com a imagem
do deplorável selvagem
sentado em sua silla
imerso em tudo
e composto em nada
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Backstage
Backstage
velhos artistas ensaiam suas falas
e as vedetes no camarim
com seus figurinos
nas vésperas da estréia
se servem do buffet
de frutas dos artistas
sob olhares de desejo e inveja
dos incautos figurantes
entre todas, a mais bela
sofisma alto em prosa poética
ao ouvido do louco
sonambulo:
- A vida é na verdade uma história em quadrinhos,
surge incontinenti
a fala inscrita no balão
enquanto a imagem descola
quadros em sequencia
sábado, 5 de novembro de 2016
O Tao Eterno
O Poeta Po Chu-i escreveu:
"Aqueles que falam nada sabem
Aqueles que sabem se calam"
Estas palavras, ao que me foi dito
Foram proferidas por Lao Tzu
Mas se devemos acreditar que Lao Tzu
Era um dos que sabiam,
Como explicar que ele tenha escrito um livro
De cinco mil palavras?
Eu já agora aqui assumo que nada sei
Nada mesmo algo sobre a vida
Nem mesmo sobre o Tao Eterno
Sou um taoista muito mais pelo que me falta
Do que de certezas que na minha mente restam
Mas sei o que ELE não é
Não é Angustia ou Desespero
Nem fome inculta
de criança carente
Não serve de emblema à ignorância
dos homens que se creem ilustres ou doutos
Nem tem a certeza dos evangelhos
Não é pecado, nem sentimento de culpa
Nem algum altar ocupa
Não-divindade amorfa
Nem preenche espaço algum
na vacuidade
Sem som, sem substância
Mas diz o sábio que ELE tudo abraça e alcança
Palavras fúteis se perdem ao vento
nesta solar fim da tarde...
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Liberdade Atônita
Semíramis bela cercada de finas plumas
olha absorta da bancada do jardim suspenso
o povaréu apressado em sua azáfama
na feira do mercado de Babilônia
sobe o odor impúdico do rebuliço das gentes
mercadores, mágicos e malabaristas
fazem seus reclames
encantam a plebe com seus trejeitos
as videntes mercadeiam esperança para os crédulos
outras mulheres negociam seus corpos
nas tabernas das vielas escuras e na porta do templo
punguistas ardilosos furtam velados pela multidão
no teatro de bonecos cercado de ouvintes atentos
gemidos de esmoleres com suas chagas expostas
imploram a piedade dos homens
e praguejam para os ávaros
ingênuos camponeses passantes incautos
com as bolsas cheias pela venda da safra
andam desavisados em meio aos sedentos lobos urbanos
Observa com inveja a musa divina
cativa deusa do harém do potentado
pomba prisioneira em gaiola de ouro e jóias
banhada em perfumes exóticos vindos de longe
rainha preferida entre tantas concubinas
inveja a liberdade das gentes simples
enquanto sorri melancólica
ao observar o movimento das ruas
que em vida nunca seus pés poderá tocar...
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