"Há recessos desconhecidos na nossa mente que estão além do limiar da consciência relativamente construída. Não é correto designar esses recessos por subconsciência ou superconsciência. A palavra além é simplesmente usada porque é o termo mais conveniente para indicar o lugar. Mas o certo é que não há na nossa consciência nem além, nem debaixo nem em cima. A mente é um todo indivisível e não pode ser desagregada em pedaços" (D. T. Suzuki - Introdução ao Zen)

"Entrar na floresta sem mover a grama; entrar na água sem provocar nenhuma ondulação" (Zenrin Kushu)

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A Confiança da Mente



Apegar-se é jamais libertar-se de estreitos limites,

É certamente seguir por um caminho errado,

Deixa isso e as coisas seguirão sua natureza,

Pois a Essencia nem permanece nas coisas, nem as deixa.


Obedece à natureza das coisas e estarás de acordo com 

                     [o Caminho


Calmo, descansado e livre das paixões;

Mas quando teus pensamentos estiverem obcecados, 

                     [estarás contra a verdade;

Assim se tornarão pesados, embotados e insatisfatórios...     


(SHINJIN-MEI - A Confiança da Mente -Poema de autoria de Sôsan, mestre Zen chinês)



quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Amores em tempos de pandemia II




Quando a vida perde o sentido
a loucura extravasa a morte
o castelo de cartas voa
Lobo assopra a casa de palha
do que parecia ser amor eterno

Era uma vez uma princesa
que tomou um porre
como quase todo o dia tomava
e deixou-se desabar na suja sarjeta
mascara rota, malcozida
caiu na vala
vociferando opróbrios
com os demônios que carregava
em seu ventre seco
Desabou como pedra
fera ferida
xingou o mundo
até mesmo seu mais intimo amante
quebrou a bengala
da consciência e sabedoria
com seus impropérios sem sentido
e depois perdeu tudo que tinha
em apenas alguns minutos
de ira bêbada
loucura etílica plena
perversa e sem sentido
sentimento suicida
de quem por dentro
morre a cada instante
e despercebe a alma rota
remendada de passados infecundos
jogada nua na calçada
como lixo de bar do bairro boêmio

Atire a primeira pedra
quem um dia não fez o mesmo

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Amor em tempos de pandemia





Acordo te olhando ao meu lado/

e me regozijo com a divindade/

Há tempos não sentia tanta paz/ 

no meu coração solitário/ 

Mergulho no azul do teu olhar profundo/ 

meu lago de paraíso / 

onde entre beijos e afagos / 

sorvo o sabor do teu amar/ 

Tremo de prazer / 

quando sinto tua pele / 

tocar meu corpo/ 

como há anos não mais acontecia...

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O Mistério do Mistério





Já vivi tanta coisa
quase todas as emoções
de uma alma encarnada
Se minha vida fosse uma novela
a ser escrita
como eu não poderia ser o vilão?

O Caminho é senda estreita e tortuosa
entre abismos majestosos
Apus* nos elevando ao ascender infinito
do encontro das almas
Desde aqueles hominídeos que
rumorejavam entre si
com medo das sombras noturnas
aos tempos dos sábios feiticeiros e feiticeiras
que invocavam espíritos em volta à fogueira
até nossos dias de controle das massas
discursos inflamados de fanáticos sanguinários
num universo de desigualdade crescente
que antecipa a Sexta Grande Extinção
Somos todos vilões da mesma peça bufa
partículas em movimento
numa misteriosa dança cósmica
matriz quântica de frequência constante
coordenada tridimensional
energia que se acredita
e questiona-se
sobre o Grande Mistério de Si-mesmo...


*Apu: é como os incas chamavam Deus, podendo ser traduzido também como, “senhor”, “chefe”, “poderoso”. Faz referencia as montanhas andinas que eram adoradas por aqueles povos pois sua presença majestosa estava diretamente conectada às mudanças das estações e o degelo de suas calotas no Verão serviam para irrigar as colheitas e trazer prosperidade e alimento para os povos. Cultuar montanhas sagradas é um principio universal dos seres humanos

segunda-feira, 17 de maio de 2021

O Transe Final

 




A MENINA E SEUS CÃES PASSAM AO LARGO

FIM DE TARDE / FRIO OUTONO

ME INVADE OS OSSOS

ESCUTO OS PASSOS DO DESTINO

BROTAM PELA CALÇADA

NUMA ESTRANHA DANÇA E RITMO

A SUBSTANCIA  AINDA SUBSISTE

ILUDE MEU OLHAR NESTE INSTANTE

HÁ TEMPOS O TOURO CAVALGA SEU DONO 

URGE CULTIVAR A COMPAIXÃO À IGNORÂNCIA

MAS TEMOS PRESSA E NÃO ESCUTAMOS 

TEMOS FOME DE ESSÊNCIAS PÚTRIDAS

SAUDADE DO FOGO DAS CAVERNAS

ÓDIO AOS QUE NÃO QUEREM ESCUTAR

NOSSAS VERDADES IMPOLUTAS

EGOTRIP INSTANTÂNEA

INDUSTRIA CULTURAL QUE CONDICIONA

E ASSENTA OS PORCOS COMENSAIS 

NA MESMA MESA

UNS A DIREITA

OUTROS A ESQUERDA

A ESPERA DA MATA FINITA

PARA SEU ULTIMO BANQUETE EXÓTICO 

ORGULHO DE VAIDADES

BURLESCO TESTEMUNHO DA FALSA CORTESIA

ENTRE IGUAIS DA MAIS FINA ESTIRPE

DE LATIFUNDIÁRIOS URBANOS 

ENQUANTO NA VALA COMUM 

SE ACOTOVELAM OS CONDENADOS

PARA SEU ULTIMO REPASTO

NUMA FEIA TERRA...


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Fiaxa de Gaza+Jacarezinho




Faixa de Gaza+Jacarezinho

27 mortos

todos negros ou quase pretos.

Assassinato seletivo,

tiro a queima roupa

ataque de milícia disparando de helicóptero.

Bala traçando o ar sem destino

Fuzil de Assalto

Jogo de Bandido e Policia

Quem sabe o que significa esta luta?

o mundo está acabando pelas beiradas

Quem é o mocinho e quem é o bandido?

Quem defende a comunidade?

Quem serve e protege?

O menino sniper

ou o mercenário invasor, colete,

toca ninja, milicia de farda?

Quem luta pelo bem ou pelo mal?

Nesta vida bandida num país de corruptos

em todos os níveis

gordas sanguessugas

de governos sórdidos e loucos

que exploram seu povo

assassinos ricos nas cidades e nos campos

traficantes de interesses vestidos de toga

milicos meliantes

pastores estelionatários da fé publica

todos somos sobreviventes

Quem são os bons?

a mão tremula do menino

aperta o gatilho

dispara a bala certeira

chove chumbo do céu

artilharia aérea

escolas, ruas, vielas

viram-se em rios de sangue

são tantos os mortos inocentes

Jacarezinho, Faixa de Gaza

Lá não tem bandido nem mocinho

tem feira, jogo de bola, baile funk

escola com criança 

vida de gente decente

alegria todo o dia

enquanto a policia não chega...


segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Mulher Selvagem




Percebo a mulher selvagem

que em mim habita

mescla misteriosa de valquíria e ninfa

Ela vive trancada numa cela escura

Como todos buscam sufocar suas Sombras

em masmorras profundas

Há muito não busco mais o autoconhecimento

em raros alfarrábios misticos

Nem tenho a certeza de prelados e doutos

sobre coisa alguma

E ainda há os que fingem para si

as mais altas honrarias

com suas falsas personas

Minha selvagem se ve desnuda

sem preconceitos de forma

com a garra e o poder feminino

que nunca desiste nem acaba

e até mesmo o oceano agita em tempestade

Esta mulher selvagem que me habita

sem rédeas, sensual,

ve-se aprisionada

Ela sou eu ou eu sou ela?

Da mente que me atrae

como a luz trai a mariposa

Liberta enfim da cela

sinto a leveza que me invade

ao atingir-se este ponto sem volta

de criar-se a cada dia

assim segue, célere e faceira

a passos largos em direção

aos
 campos eternos

do meu Samadhi....